segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Noite


Sujeito esquálido de dedos amarelos, entre logo naquele orelhão e faça sua ligação para deus. Não há tempo para desperdiçar quando as garotinhas de vestidos curtos ainda exalam o furor de suas juventudes maliciosas e desviam-se dos mendigos famintos com a astúcia de velhas prostitutas. Deixemos estas ruas imundas, estes seres trôpegos de corações acelerados, e voltemos à sucursal do inferno, onde os diálogos absurdos se alternam entre goles de álcool e desejos sujos que deixamos escapar por entre os lábios. Compartilharemos as euforias de nossas vidas modestas e talvez possamos encontrar um mísero instante de iluminação.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cadáver Esquisito




Por Hamilton Fernandes e Helio Hideki



O desespero azul de um terminal vazio

O abismo que o recém-nascido desconhece – e também eu


O desabamento do céu da gengiva

Corrimentos vaginais na calçada


Que me importa o formato de seus pelos púbicos, se

Eu posso rasgar o aço com minhas próprias mãos


Os livros e os bons filmes e os dias de céu limpo e

as vaginas sedentas por

sexo não me confortam


Um mundo imundo – um cérebro-intestino


Os ônibus carregando os trabalhadores de volta para casa,

[os bebês dormindo, bajulados,

[vivendo, esquecendo, esquecendo...


O Universo foi calculado errado...



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Pedaços de ilusão – um buraco sem fim

O câncer corrói as entranhas do velho decrépito, que geme, sozinho,

A aritmética do lixo, das formigas carnívoras

Pra rabuda que passa, sou menos que nada

E uma vagina no umbigo e na testa


Além das nuvens, Júpiter, Saturno, os marcianos

Esperando uma resposta sem sentido


Resignado, o homem-cão fecha os olhos diante do choque

inevitável – a verdade, a libertação


Porque as drogas da farmácia não podem curar a dor...


Embriagado, as luzes de néon confundem-me e

Ainda não inventaram um deus para sua solidão.




Poemas escritos a partir da (anti-)técnica dadá-surrealista Cadavre exquis

(Agradecimentos especiais à Cervejaria Krill por fabricar cervejas tão vagabundas e baratas...)



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Conto Podre

O telefone.
– E aí, velho, tudo certo?
– Tudo bem, cara...
– Aí! Se liga! Colaí em casa a-go-ra! Tem uma surpresa te esperando!
– O quê?
– Cola aí, velho!

O cara do outro lado da linha é Sander – um cara viciado em cocaína que conheço há dez anos e na semana passada me fotografou comendo sua esposa, aliança de ouro, casamento no civil, igreja e tudo mais, no sofá da sala, ela fingiu que não sabia o que estava acontecendo no começo, arrebitou a bunda, estava um pouco bêbada e o Sander ficou lá de pau mole, totalmente cheirado, tirando fotos e tentando levantar o pau com as carícias da boca da esposa enquanto eu metia por trás naquela cadela e ele dizendo “só não come o cu porque esse cuzinho é meu, certo?”, era o que ele dizia, ok, tudo bem Sander...

Mas isso foi na semana passada...

Toco a campainha.

– E aí, meu irmão! – me recebe com um abraço. – Chega aí, chega aí, abre a porta do quarto devagarinho e dá uma olhada...

Na cama de casal, dormindo como uma pedra, está a cunhada do filho da puta, largada, pelada debaixo das cobertas, apenas a cabeleira negra esparramada no rosto, de bruços...

– Não te falei?! Hã? – e explode numa gargalhada cínica enquanto fecha a porta e tira um punhado de papelotes do bolso. Um Dreher repousa em cima da mesinha no centro da sala.
– Calma lá, Sander! Que é isso, cara? – não consigo segurar a risada. – O que essa mina tá fazendo aqui?...
– Foda-se, mano! Toma um conhaque e dá uma olhada nesse dvd que eu peguei – um filme sobre Bob Dylan na televisão. Ele aumenta o volume.

O conhaque começa a amortecer meus miolos, abro a porta do quarto e ainda ouço o filho da puta rindo e murmurando na sala vai lá vai lá vai lá...

Paro ao lado da cama. Ela desperta de repente, ainda um pouco embriagada pelo sono.
– Oiiiii...
Vou direto ao assunto:
– Quer gozar?
– Só tava esperando alguém...

Uma caverna quente, musgos e saliências... Um mar de lubrificante humano que poderia besuntar todas as máquinas, pistões e correntes de bicicleta, todos os malditos volkswagens, fords e chevrolets desse mundo, e viva o progresso, camarada, viva, três vivas, eu mesmo sou uma máquina e nunca mais quero sair desse abismo quente, escorregadio e cheio de musgos.

Toca o telefone, o celular... Ela se estica para alcançar a bolsa sem sair de cima de mim, engatada ainda, atende:
– Oi, amor...
– Oi, chuchu! – dá pra ouvir a voz do cara vazando pelo aparelho. – Viu, vou demorar um pouco pra sair aqui do trampo... Você já foi buscar a Dani na escola?
– Não, ainda não fui, não deu tempo. Acabei de passar no mercado, tô fazendo xixi aqui no banheiro... – e dá uma reboladinha em cima do meu cacete, que agora começa a murchar... Que merda, como é que pode uma vagabundice dessa, como é que pode, meu Deus?! Chega a ser engraçado... Desengato minha pica daquela merda de buceta e começo a sentir raiva de mim mesmo... Como posso ser iludido tão facilmente por uma merda dessa? O que eu estou fazendo aqui, caralho? Me responda, meu caralho, como você pode ser tão cego, hã? Haha!

Ela desliga o telefone.
– Tenho que estar em casa às sete...
– Desencana, eu também tenho que ir embora...
– Você não ia me fazer gozar?

Ok! Eu vou te fazer gozar, sua putinha de merda, mas dessa vez não sairá porra do meu pau, dessa vez sairão balas de rifle dessa pica, tá entendo? Vou te foder e a cada estocada que eu der espero que saia um tiro de 9mm, um míssil, uma porra cheia de radiação nuclear que fique guardada nesse útero seco e que contamine as próximas duas, três, cinco gerações que surgirem desse ventre podre! É isso aí, “meu amor”! Aí vamos nós! Leva um pouquinho desse leite e alimenta tua filha, teus netos, bisnetos, leva um pouquinho desse leite e mistura no creme de barbear do teu marido e diga a ele o quanto você o ama todas as vezes que ele chegar em casa depois do trabalho!

Espero sentado no sofá enquanto meu amigo, o debiloide cocainômano, leva a cunhadinha até a portão. 6:10 da tarde. O sol se põe lá fora e o céu está cinza, carregado de nuvens podres... Córregos e rios poluídos refletindo a nossa imundície... e eu não consigo mais me concentrar nesse filme do Bob Dylan...

Notlimah Avlis

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Autobiografia em uma lauda


Foi quando eu vivia no fundo do oceano que descobri o poder destrutivo de minhas mãos. Era uma madrugada de fevereiro depois de Cristo. Hoje tudo que eu toco vira pó, fogo, hecatombe...

Os sinos tocaram ao meio-dia quando tudo explodiu. Eu sorria sozinho, cansado, segurando um girassol azul. Meus ovários foram extirpados pelas mãos hábeis de uma deusa hindu. Meu coração foi mastigado por um tigre siberiano e oferecido aos filhotes. A dor que senti foi levada ao céu ao sétimo dia e descrita num formulário da companhia universal de esgotos. Nunca mais consegui dizer esta palavra – AMOR.

Meu pai me fazia cumprir uma dieta rigorosa de terra, cacos de vidro e ratos. Vomitei tudo aos 21 anos de idade numa dissertação intitulada “A origem do universo e os corrimentos vaginais”. Amei mulheres em silêncio. Matei coisas e pessoas dentro de mim. Ainda amo palavras e ideias de origem incerta... É por isso que insisto em escrever.

Alguns amigos adoeceram junto comigo da solidão, da angústia do novo século. Em cada ruga facial, em cada máquina estúpida, em cada bugiganga eletrônica e vazio sentimental que surge está a marca do mal inominável que nos aflige. A Era de Aquário é na verdade a Era dos Esgotos, a Era do Tetra Pak, de tudo o que não pode ser aproveitado...

Ainda assim, os seres aquáticos que habitam nossos sonhos permanecem vivos e uma, duas, três mil estrelas explodem em algum lugar do Universo neste exato momento... As regiões abissais da mente... Uma nova rachadura no ovo cósmico... A extravagância do caos... O pensamento atravessa a galáxia de ponta a ponta dez mil vezes mais rápido que a velocidade da luz... E dificilmente você conseguirá brecá-lo... Porque a morte não é mais o limite!


Hamilton Fernandes

Imagem: Nebulosa da Hélice - hubblesite.org


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Lembranças da última noite de insônia

Esses ruídos noturnos. O silêncio da lâmpada solitária não esconde o ranger das tábuas do chão, o balanço da porta pelo vento furtivo. E no saltar sereno das linhas de um livro, esses ruídos noturnos parecem anteceder o estrondo iminente.

A leitura é descontinuada. Os olhos se fixam no vazio e forçam os ouvidos a absorverem o menor dos vestígios. Um novo ruído e o coração dispara. A mente se põe a fabricar hipóteses que em outra ocasião pareceriam inverossímeis.

O dia encobre os ruídos suspeitos. Encolhem-se sob os barulhos facilmente identificáveis. Mas a noite cessa a memória auditiva. E esse universo de pequenas existências sonoras passa a povoar as noites de insônia daqueles que não têm na audição o melhor de seus sentidos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

%



Um publicitário é o único cara capaz de transformar um sabão, um detergente em pó em uma muda de árvore. São as maravilhas da computação gráfica. (Pois é, acabei de assistir a mais um comercial escroto de uma empresa “que se preocupa com o meio ambiente”). Na verdade, estou desperdiçando meu talento. Deveria trabalhar na televisão. Sou um gênio televisivo e sei do que o telespectador precisa:


A nova novela das 8... CRA-CO-LÂN-DIA!
Lenira é uma menina de 10 anos que vive no sertão brasileiro. Ela não suporta mais os abusos sexuais de seu pai e vai tentar a vida na cidade grande. Não será nada fácil! Depois de chupar trinta e cinco caminhoneiros, ela chega a São Paulo e acaba na Cracolândia! (– Me dá mais uma rocha, Alemão! Cenas de Lenira sentada na calçada fumando pedra em um cachimbo improvisado).

Mas ela ainda não conheceu Ricardo, um jovem pastor evangélico muito louco que vai dar uma vida
de princesa para essa garota (– Senta aqui no meu colo, vem Lenira! Eu te amo! – diz ele após um culto, numa salinha reservada da Igreja Suprema do Supremo Senhor Universal.)

OU

Mutantes – A Nova Geração
Esses mutantes alucinados vão arrasar a cidade! Michael usa os super-poderes de seu ânus para engolir e mastigar executivos, donas-de-casa, motoristas de ônibus e quem mais surgir na sua frente! (Aparece o ator abaixando as calças e seu ânus é projetado para fora, uma coisa imensa do tamanho de um orelhão telefônico e um homem de terno é sugado pelo gigantesco reto e cuspido logo em seguida como uma massa disforme de carne, ossos e gosma anal).

Seu amigo Jandir também está cansado do sistema e vai dar uma surra de pica na galera! (Jandir abre a braguilha e seu pênis cresce, atingindo o tamanho de um caixa eletrônico. Ele espanca duas velhas em um shopping center com a glande de seu membro).

Varusca é uma jovem ambiciosa que quer crescer na vida. Ela manipula os homens com seu poder de fazer surgir vaginas dentadas em qualquer parte de seu corpo. (Um homem engravatado fode a sola do pé de Varusca no escritório. Quando começa a gozar, solta um grito terrível. Varusca dá uma gargalhada diabólica.)


Por hoje é só pessoal!

Um grande abraço a todos vocês!
E não deixem de acessar o nosso site – www.analorgia.blogspot.com, ok?

Notlimah Avlis


Imagem adulterada por James Cauty - http://www.cnpdonline.com/