terça-feira, 25 de março de 2008


A arte não há de desligar-se da vida e tampouco de banalizar-se inteiramente, pois sempre haverá entre o declínio e o falecimento a probabilidade da ressurreição.
Fotografia: Boris Kossoy

terça-feira, 18 de março de 2008


o pequeno feto
ouve as distorções aquosas
da melodia que atravessa o útero

Hamilton Fernandes
Foto: National Geographic, Clique

sábado, 15 de março de 2008

Grande merda não ter te beijado. Você voltaria pro seu mundinho de verdade de qualquer jeito. Não teria feito a menor diferença ou teria? Grande merda se tivesse beijado, eu teria seu gosto em mim... e você iria embora de qualquer jeito. Você sempre vai embora...

Grande merda passar a noite acordada entre lamentos e acordes tristes do Joy Division. Que diferença tem se é
Candidate ou Atmosphere? Você não ouve... não sabe... não quer. Eu tenho a minha bolha e você a sua.

I try to get you. You treat me like this.

People like you find easy. Walking on Earth.

Indisponibilidades. Implicações. Constrangimentos. Incômodos.

Isso já foi longe demais? Eu me pergunto...
Você não pode? Eu acho que não quer.

A ficção é sedutora, concordo. Mas eu sou de verdade.

[ponto]
[dúvida]
[bolha]
[ficção]

::: you walk away in silence:::

segunda-feira, 3 de março de 2008

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008


Era tudo uma casualidade, ele dizia que me amava e enquanto isso ia criando cenas românticas, do tipo um belo beijo sob a chuva, e eu com a minha mania de atriz as interpretava pensando estar realmente tragando uma baforada de paixão. Beijava-o como quem beija o amado que regressa de longas jornadas, tocava o seu sexo com o olhar de uma Pomba Gira no ápice do prazer, passeava minhas mãos por sobre sua face como uma menina virgem que acaba de descobrir o amor e ele virava os olhos de prazer proferindo palavras banais e insinuando seu corpo para o meu vil deleite. E ele continuava dizendo que me amava e exigia que o fizesse também, mesmo estando exausta de proferir mentiras e frases decoradas criadas por ele a todo instante, pois bem, eu as proferia mesmo assim. Afinal, era eu mesma a prostituta que vendia meus sentimentos em troca de uma simples ilusão que nem sequer me era de posse. Por vezes deparava-me com o meu olhar molhado frente ao espelho e recordava os restos de minha alegria que caminhavam por baixo dos passos passados de um homem que tão longe de mim se encontrava, não tardava para nesses momentos insones de lembranças meu peito se encher de um misto nostálgico de emoção, fazendo rodopiar em meus devaneios imagens prazerosas de outrora quando ainda avistava meus olhos cobertos de paixão... Hahahaha... Oh! Que triste sina a minha de donzela abandonada! Mas as horas se passavam e tudo se findava, voltava a ser uma outra qualquer que um homem crendo ser amado a chamava de mulher... E novamente, quase que sem perceber, me encontrava coberta pelo cio translúcido da grande dama do céu, desnuda, escutando o crespo sussurrar dos gemidos daquele homem que na cama de mim se embebia, embebendo seu corpo ignóbil em suor e me causando náuseas com aquela face imunda de mancebo apaixonado. Já não mais residia em meu corpo chama aventureira de meretriz, tinha naquela cama a vestimenta moribunda da alma destroçada de uma péssima atriz.... E as paredes do quarto urinando em meus cabelos... E o riso sarcástico pintando o rosto das gavetas... E a porta fechada se masturbando com a maçaneta quase que se insinuando para o mudo criado... E a face... E a face imunda daquele mancebo apaixonado berrando em suspiros graves: "- Me ame, eu sou seu namorado!" Tudo, tudo ali me consumia, me engolia numa tragada e depois num soluçar gargalhado me vomitava... E a música... E a música dançando nua na vitrola tal qual irada Bacante bramindo na fogueira. Não era eu mais mulher, amante ou feiticeira, o corpo que jazia ali era o corpo da própria tristeza...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Cabeça de Aquário

Roubaram meus rins enquanto a Máquina engolia as cores do céu & inundava as ruas com metal radioativo petróleo & cânceres multicoloridos controlados por anfíbios demoníacos cujas excreções são substâncias altamente tóxicas capazes de gerar uma grande confusão mental & o indivíduo percebe que a “assim chamada realidade” é um fragmento artificial do sonho elétrico dos deuses hermafroditas que comandam todos os seres através de ordens telepáticas transmitidas de algum lugar da galáxia M 81.

Eu limpo a sujeira do coração com graxa saliva ácido porque tudo aqui está prestes a explodir em uma só direção um só destino uma só salvação em apenas um metro de dor de uma lei criada para enganar os pássaros colossais da imaginação durante a madrugada azul de estrelas vermelhas & mendigos embriagados pelo mundo dos destilados sobrenaturais que desaparecem & reaparecem a todo o instante.

O tempo passa como uma fotografia de olhos femininos sob a luz da estrela artificial criada pela Microsoft enquanto novas crateras surgem na mente dos inaladores das substâncias nocivas do verbo construtor de livros invisíveis da religião das árvores semelhantes a hipopótamos em depressão pós-parto-pós-moderna dos zoológicos industriais produtores de carne vegetal azul rica em coliformes astrais mamíferos aquáticos & desorientação urbana.

Selvagens carbonizam bicicletas em praça pública enquanto policiais fumam maconha & discutem sobre a temperatura na superfície de Vênus sem a consciência de que zero & infinito podem ser a mesma coisa um anátema que perturba a geração de seres humanos acéfalos há mais de cinco séculos jovianos contabilizados em supercomputadores paranóicos.

O silêncio técnico da meditação arromba as fronteiras das nove dimensões resultantes da colisão entre um rinoceronte e um míssil de diamante encontrado a cinco mil metros de profundidade no principal lago de metano de Titã em uma região onde se pode sonhar com laranjas zebras & cirurgias dentárias sem nenhum sentimento de culpa ou solidão.

Libélulas e águas-vivas desmaiam sob o efeito de barbitúricos produzidos pela indústria farmacêutica da nova era controlada por tubarões & polvos de terno e gravata que proibiram todos os sonhos eróticos com nossas mães & irmãs & vaginas horizontais & todas as infinitas mutações do Oriente.

Louva-a-deuses mastigam cabeças humanas no escritório & aniquilam o pensamento absurdo de que dois mais dois é igual a quatro & 57 bilhões de palavras de uma língua desconhecida & hieróglifos pornográficos foram grafitados nas ruínas da civilização que um dia pensou ser invencível & todos estamos dormindo dormindo dormindo enquanto ela desperta com a vagina molhada.

Uma tesoura enterrada no coração ou nas vértebras provoca a deliciosa sensação de nascer em pleno século vinte um quando nossos publicitários militares desenvolveram a arte do controle mental através de imagens televisuais que propagam a eterna masturbação e escondem em nossos intestinos a secreta vontade de destruição total.

Atalhos na vastidão permitem girafas & girassóis enferrujados na bela concepção de um cálculo de nossa elevação espiritual ou o grito do monstro que dorme no interior do pâncreas & aguarda aguarda aguarda até que começa a comer carne humana indiscriminadamente simbolizando a esperança o êxtase a metafísica que porra é essa diriam nossos tataravôs em suas cadeiras de balanço rangendo suas dentaduras irritantes.

FoTo e TeXto: Hamilton Fernandes