sábado, 28 de junho de 2008

Entrevista com Henry Miller



Entrevista concedida a George Wickes para a Paris Review, 1961.

Tradução: Hamilton Fernandes


A ARTE DA FICÇÃO nº28

Henry Miller

Em 1934, Henry Miller, então com 42 anos e vivendo em Paris, publicou seu primeiro livro. Em 1961, o livro foi finalmente publicado em sua terra natal, onde instantaneamente tornou-se um “best-seller” e causou grande polêmica. No momento as águas têm sido tão enlameadas pela controvérsia da censura, pornografia e obscenidade que o livro se tornou o foco das atenções.

Mas isso não é novidade. Como D.H. Lawrence, Henry Miller tem sido por muito tempo uma notoriedade, uma lenda. Agraciado pela crítica e por outros artistas, venerado por viajantes, imitado pelos beatniks, ele é, antes de tudo, um herói da cultura – ou um vilão para aqueles que o vêem com uma ameaça à lei e à ordem. Ele poderia até mesmo ser descrito como um herói do povo: vagabundo, profeta, exilado, o garoto do Brooklyn que foi a Paris quando todo mundo estava voltando para casa, o boêmio faminto suportando as más condições do artista criativo na América e, nos últimos anos, o sábio do Big Sur.

Sua vida está escrita em uma série de narrativas picarescas na primeira pessoa do presente histórico: os primeiros anos no Brooklyn, em Primavera Negra; sua luta para encontrar a si mesmo durante os anos 20, em Trópico de Capricórnio e os três volumes da Crucificação Encarnada; suas aventuras em Paris na década de 30, em Trópico de Câncer.

Em 1939, ele foi à Grécia para visitar Lawrence Durrell; sua breve estada forneceu as bases narrativas para O Colosso de Marússia. Interrompido pela guerra e forçado a voltar à América, ele registrou a odisséia de um ano de duração em Pesadelo Refrigerado. Foi então em 1944 que se estabeleceu num magnífico trecho da costa da Califórnia, levando a vida descrita em As laranjas de Hieronymus Bosch. Agora que seu nome transformou Big Sur em um centro da peregrinação, ele resolveu dar o fora e continuar.

Aos 70 anos, Henry Miller se parece mais com um monge budista que “engoliu um canário”. À primeira impressão, ele é um ser humano cômico e afetuoso. Apesar da cabeça calva com um halo de cabelos brancos, não existe nada de velho nele. Sua figura, surpreendentemente frágil, é a de um jovem; todos os seus movimentos e gestos são juvenis.

Sua voz é magicamente cativante, suave, ressonante, mas bastante grave com um grande alcance e variedade de modulações; ele não é tão inconsciente como parece ser a respeito de sua maneira de falar musical. Fala um inglês do Brooklyn modificado, frequentemente pontuado por pausas retóricas como “Don’t you see?” e “You Know?” e diminuindo a voz para uma série de sons “yas, yas... hmm... hmm... yas... hm... hm”. Para se entender melhor e honestamente o homem, deve-se escutar as gravações de sua voz.

A entrevista foi realizada em setembro de 1961, em Londres.

– George Wickes, 1962

Entrevistador

Antes de tudo, você poderia explicar como começa de fato a escrever? Aponta lápis como Hemingway ou algo do tipo para esquentar os motores?


Henry Miller

Não, nada desse tipo. Geralmente começo a trabalhar logo após o café da manhã. Sento-me imediatamente diante da máquina de escrever. Se me dou conta de que não consigo escrever, desisto. Mas não, não há nenhuma regra ou estágios preparatórios.


Entrevistador

Existem certos momentos do dia ou certos dias em que você trabalha melhor?


Henry Miller

Hoje eu prefiro a manhã, e apenas por duas ou três horas. No começo, eu costumava escrever da meia-noite até o amanhecer, mas isso foi bem no começo. Mesmo depois que eu estava em Paris, achava muito melhor trabalhar pela manhã. Mas nessa época eu costumava escrever por longas horas. Trabalhava de manhã, tirava uma soneca depois do almoço, levantava e escrevia novamente, às vezes até a meia-noite. Nos últimos dez ou quinze anos, percebi que não é necessário trabalhar tanto assim. É, de fato, ruim. Você esvazia o reservatório.


Entrevistador

Você diria que escreve rapidamente? Perlès disse no livro “Meu Amigo Henry Miller” que você é um dos mais rápidos datilógrafos que ele conheceu.


Miller

Sim, muitas pessoas dizem isso. Devo fazer um grande estardalhaço quando datilografo. Acho que escrevo rapidamente. Mas isso varia. Posso escrever rapidamente por um tempo, e então chega o momento em que eu emperro e gasto uma hora em uma página. Mas isso é muito raro, porque quando percebo que estou atolando, pulo uma parte difícil e continuo, e volto a essa parte um outro dia, com a cabeça fresca.


Entrevistador

Quanto tempo você diria que levou para escrever um dos seus primeiros livros?


Miller

Não saberia responder. Eu nunca consegui prever quanto tempo um livro levaria: mesmo agora quando eu planejo algo, não saberia lhe dizer. E de certa maneira é falso acreditar nas datas que um autor diz ter começado e terminado um livro. Não significa que ele estava escrevendo constantemente o livro na época. Pegue Sexus ou toda a Crucificação Encarnada. Acho que comecei a escrevê-la em 1940 e aqui estou eu ainda trabalhando nela. Bem, seria absurdo dizer que eu estive trabalhando nesses livros durante todo esse tempo. Eu não cheguei a nem pensar neles por anos. Então, como posso falar sobre o tempo que demoro para escrever meus livros?


Entrevistador

Sei que você reescreveu Trópico de Câncer diversas vezes e essa obra deu mais trabalho para você do que todas as outras, mas claro, foi o início. Estava pensando se a escrita não se tornou mais fácil para você hoje em dia?


Miller

Essas questões não fazem sentido. O que importa quanto tempo se leva para escrever um livro? Se você perguntasse a Simenon, ele diria com precisão. Acho que ele demora de quatro a sete semanas. Ele sabe que pode contar com isso. Seus livros normalmente têm uma determinada extensão. Além disso, ele é uma dessas raras exceções, um homem que quando diz “Agora vou escrever este livro”, entrega-se completamente ao trabalho. Ele se isola e não pensa e faz nada além disso. Bem, minha vida nunca foi assim. Tenho muitas outras coisas para fazer enquanto estou escrevendo.


Entrevistador

Você edita ou muda muito o que escreve?


Miller

Varia muito. Nunca faço qualquer correção ou revisão durante o processo de escrita. Digamos que escrevo algo de qualquer maneira e então depois que a situação esfria – deixo o texto descansar por um tempo, talvez um ou dois meses – e vejo-o com novos olhos. E então me divirto. Começo a trabalhar [no texto] com o machado. Mas nem sempre é assim. Às vezes, surge quase do jeito que eu queria.


Entrevistador

Como é seu processo de revisão?


Miller

Quando estou revisando uso pena e tinta para fazer mudanças, riscar, inserir. O manuscrito fica maravilhoso depois disso, como um Balzac. Então, eu datilografo novamente e nesse processo faço mais mudanças. Prefiro eu mesmo datilografar novamente porque mesmo quando acho que fiz todas as mudanças que queria, o mero trabalho mecânico de tocar as teclas aguça meus pensamentos e eu me encontro revisando enquanto estou fazendo o texto final.


Entrevistador

Quer dizer que existe uma relação entre você e a máquina?


Miller

Sim, de certo modo, a máquina atua como um estímulo; é algo cooperativo.

Entrevistador

Em Os livros da minha vida você diz que a maioria dos escritores e pintores trabalha numa situação desconfortável. Você acha que isso ajuda?

Miller

Sim. Chego a acreditar que a última coisa que um escritor ou qualquer artista pensa é em se sentir confortável enquanto está trabalhando. Talvez o desconforto sirva de ajuda e estímulo. Homens que podem se dar ao luxo de trabalhar em condições melhores, muitas vezes escolhem trabalhar sob condições miseráveis.

Entrevistador

Não são esses desconfortos às vezes psicológicos? Pegue o caso de Dostoievski...

Miller

Eu não sei. Sei que Dostoievski estava sempre em um estado miserável, mas você não pode dizer que ele escolheu desconfortos psicológicos deliberadamente. Não, duvido muito. Não acho que alguém escolhe essas coisas, a menos que seja inconscientemente. Acredito que muitos escritores têm o que muitos chamariam de uma natureza demoníaca. Eles estão sempre com problemas, você sabe, e não somente enquanto estão escrevendo ou porque estão escrevendo, mas em todos os aspectos de suas vidas, com o casamento, amor, negócios, dinheiro, tudo. Está tudo interligado, tudo parte e parcela da mesma coisa. É um aspecto da personalidade criativa. Nem todas as personalidades criativas são assim, mas algumas são.

Entrevistador

Você fala em um de seus livros sobre “o ditado”, de ser quase possuído, de ter algo transbordando de você. Como isso funciona?

Miller

Bem, acontece somente em raros intervalos, esse ditado. Alguém assume o comando e você apenas copia o que está sendo dito. Aconteceu com mais intensidade com a obra sobre D.H. Lawrence, um trabalho que nunca terminei – e isso aconteceu porque eu tive que pensar demais. Veja bem, não sou muito bom pensando. Um escritor não deveria pensar demais. Eu trabalho a partir de algum lugar muito profundo; e quando escrevo, bem, eu não sei exatamente o que vai acontecer. Sei sobre o que eu quero escrever, mas não estou muito preocupado em como dizê-lo. Mas nesse livro eu estava lutando com as idéias; elas tinham que ter alguma forma e significado e outras coisas. Fiquei nele, suponho, uns bons dois anos. Saturei-me dele, fiquei obcecado e não conseguia deixá-lo. Não conseguia nem mesmo dormir. Bem, como eu digo, o ditado assumiu com mais intensidade nesse livro. Aconteceu com o Capricórnio também e com partes de outros livros. Acho que essas passagens se destacam. Não sei se as pessoas reparam ou não.

Entrevistador

São essas as passagens que você chama de cadenzas?

Miller

Sim, eu usei essa expressão. Essas passagens às quais me refiro são tumultuosas, as palavras despencam umas sobre as outras. Eu poderia continuar indefinidamente. É claro que eu penso que essa é a maneira que alguém deveria escrever o tempo todo. Você vê aí toda a diferença, a grande diferença entre o pensamento, o comportamento e a disciplina do Ocidente e do Oriente. Se, digamos, um artista Zen vai fazer algo, ele teve um longo preparo de disciplina e meditação, profundo e quieto pensamento sobre isso, e então nenhum pensamento, silêncio, vazio e assim por diante – talvez por meses, anos. Quando ele começa é como uma iluminação, exatamente o que ele quer – é perfeito. Bem, é dessa forma que eu acredito que a arte deveria ser feita. Mas quem faz assim? Nós levamos vidas que são contrárias à nossa profissão.

Entrevistador

Existe algum condicionamento em particular pelo qual o escritor pode passar, como o esgrimista Zen?

Miller

É claro, mas quem o faz? Quer ele pretenda fazê-lo ou não, entretanto, todo artista disciplina a si mesmo e se condiciona de uma maneira ou de outra. Cada homem tem o seu jeito. Afinal, a maior parte da escrita é feita longe da máquina de escrever, longe da escrivaninha. Eu diria que ocorre nos momentos quietos e silenciosos, enquanto você está caminhando ou fazendo a barba ou jogando, enfim, ou mesmo quando está conversando com quem não está vitalmente interessado. Você está trabalhando, sua mente está trabalhando no problema na parte de trás de sua cabeça. Então, quando você se senta à máquina é apenas uma mera questão de transferir.

Entrevistador

Você disse anteriormente que existe algo dentro de você que assume o controle.

Miller

Sim, claro. Ouça. Quem escreve os grandes livros? Não somos nós, que assinamos nossos nomes. O que é um artista? É um homem que tem antenas, que sabe como sintonizar as correntes que estão na atmosfera, no cosmos; ele meramente tem a facilidade de sintonizar, como era. Quem é original? Tudo que estamos fazendo, tudo que pensamos já existe e somos somente intermediários, isso é tudo, quem utiliza o que está no ar. Por que idéias, por que grandes descobertas científicas muitas vezes ocorrem em diferentes partes do mundo ao mesmo tempo? O mesmo é verdadeiro para os elementos que formam um poema ou uma grande novela ou qualquer obra de arte. Eles já estão no ar, a eles não foi dada uma voz, isso é tudo. Eles precisam do homem, do interpretador para levá-los adiante. Bem, e é verdade também, claro, que alguns homens estão à frente de seu tempo. Mas hoje não creio que é o artista quem está tão à frente de seu tempo como o cientista. O artista está ficando para trás, sua imaginação não está acompanhando os passos do cientista.

Entrevistador

Como você considera o fato de que certos homens são criativos? Angus Wilson diz que o artista escreve por causa de uma espécie de trauma, que usa sua arte como uma forma de terapia para superar suas neuroses. Aldous Huxley, por outro lado, tem uma visão totalmente oposta, e diz que o escritor é predominantemente são, que, se ele tem uma neurose, isto apenas lhe dá vantagens como escritor. Você tem alguma opinião sobre o assunto?

Miller

Eu acho que isso varia de acordo com o escritor. Não acho que você possa afirmar isso para todos os escritores. Um escritor afinal é um homem como os outros; ele pode ser neurótico ou não. Quer dizer, sua neurose, ou seja lá o que for que dizem fazer parte de sua personalidade, não explica sua escrita. Acho que é uma coisa muito mais misteriosa do que isso e eu nem tentaria meter o bedelho neste assunto. Eu disse que o escritor é um homem que tem antenas; se ele realmente soubesse o que foi um dia, seria bastante humilde. Reconheceria a si mesmo como um homem que foi possuído por uma certa faculdade para a qual foi destinado e a usaria a serviço de outros. Ele não tem que se orgulhar disso, seu nome não significa nada, seu ego não é nada, ele é somente um instrumento em uma longa progressão.

Entrevistador

Quando você descobriu que tinha essa faculdade? Quando você começou a escrever?

Miller

Eu devo ter começado enquanto estava trabalhando para a Western Union. Foi certamente quando escrevi o primeiro livro, em qualquer caso. Escrevi também outras coisas menores na época, mas a coisa de verdade aconteceu depois que eu desisti da Western Union – em 1924 – quando decidi que seria um escritor e me entregaria completamente a isso.

Entrevistador

Então isso significa que você começou a escrever dez anos antes do Trópico de Câncer ser impresso.

Miller

Por aí, sim. Entre outras coisas, escrevi duas ou três novelas durante esse período. Tenho certeza de que foram duas antes de escrever Trópico de Câncer.

Entrevistador

Você poderia falar mais sobre esse período?

Miller

Bem, eu falei bastante sobre isso na Crucificação Encarnada: Sexus, Plexus e Nexus são só sobre esse período. Você encontrará ainda mais na última metade de Nexus. Eu falei sobre todas as minhas tribulações durante esse período – minhas condições físicas, minhas dificuldades. Eu trabalhava como um cão e ao mesmo tempo – como eu devo dizer? – estava em um nevoeiro. Eu não sabia o que estava fazendo. Eu não conseguia ver ao que eu estava almejando. Supunha-se que eu estivesse trabalhando em um romance, escrevendo esse grande romance, mas na verdade eu não estava chegando a lugar algum. Às vezes, não escreveria mais do que três ou quatro linhas por dia. Minha esposa chegaria em casa à noite e perguntaria “Então, como está indo?” (eu nunca a deixava ver o que estava na máquina de escrever). E eu diria “ah, está fluindo maravilhosamente”. “Em que parte você está exatamente agora?”. Agora, imagine você, talvez de todas as páginas que era suposto eu ter escrito, talvez eu tivesse escrito apenas três ou quatro, mas eu falaria como se tivesse escrito cem ou cento e cinqüenta páginas. Continuaria falando sobre o que tinha feito, compondo o romance conforme eu falava com ela. E ela ouvia e me encorajava, sabendo perfeitamente bem que eu estava mentindo. No dia seguinte ela voltaria e diria “E sobre aquela parte que você falou outro dia, como está indo?” e era tudo uma grande mentira, entende, uma invenção entre nós dois. Maravilhoso, maravilhoso...

Entrevistador

Quando você começou a conceber esses volumes autobiográficos como um todo?

Miller

Em 1927, quando minha esposa foi para a Europa e eu fui deixado sozinho. Eu tive um emprego por um tempo no Departamento de Parques do Queens. Um dia, ao final do dia, ao invés de ir para casa, fui tomado por essa idéia de planejar o livro da minha vida e fiquei acordado a noite toda o fazendo. Planejei tudo o que eu tinha escrito até a data em quarenta ou cinqüenta páginas datilografadas. Escrevi em notas, no estilo telegráfico. Mas a coisa toda está ali. Todo meu trabalho desde Capricórnio, passando pela Crucificação Encarnada – exceto o Câncer que foi uma coisa do presente imediato – é sobre os sete anos que vivi com essa mulher. Desde a época em que a conheci até quando parti para a Europa. Eu não sabia então quando partiria, mas sabia que mais cedo ou mais tarde iria. Este foi o período crucial da minha vida como escritor, o período em que estava prestes a deixar a América.

Entrevistador

Durrell fala sobre da necessidade do escritor de romper os limites, ir além em sua escrita, de ouvir sua própria voz. Não é esse, na verdade, seu próprio meio de expressão?

Miller

Sim, acho que sim. De qualquer forma, aconteceu comigo com o Trópico de Câncer. Até aquele momento você poderia dizer que eu era um escritor completamente derivativo, influenciado por todo mundo, pegando todas as tonalidades e sombras de cada escritor que eu amava. Eu era um homem literário, você poderia dizer. E eu me tornei um homem anti-literário: cortei o cordão. Eu disse “somente farei o que consigo, expressar o que eu sou” – foi por isso que usei a primeira pessoa, que escrevi sobre mim. Eu decidi escrever a partir do ponto de vista da minha própria experiência, o que eu conheci e senti. E esta foi minha salvação.

Entrevistador

Como eram os seus primeiros romances?

Miller

Imagino que você encontraria, naturalmente vai encontrar, alguns traços da minha pessoa neles. Mas senti ardentemente que deveria ter alguma espécie de estória, uma trama para desenrolar; eu estava mais preocupado então com a forma e a maneira de fazê-lo do que com a coisa vital.

Entrevistador

Isto é o que você quer dizer com abordagem “literária”?

Miller

Sim, algo que está desgastado e é inútil e do qual você deve se livrar. O homem literário existente mim tinha de ser exterminado. Naturalmente você não mata esse “homem”, ele é um elemento vital de você como escritor, e certamente todo artista é fascinado pela técnica. Mas a outra coisa na escrita é você. A questão que eu descobri é que não existe a melhor técnica. Eu nunca senti que deveria ser fiel a qualquer maneira particular de abordagem. Eu tento permanecer aberto e flexível, pronto para mudar com o vento ou com a corrente de pensamento. Esta é minha postura, minha técnica, ser flexível e alerta, usar seja lá o que for que eu ache bom no momento.

Entrevistador

Em “Carta aberta aos surrealistas de todas as partes”, você diz “eu escrevia surrealisticamente na América antes de sequer ouvir a palavra”. O que você quer dizer com surrealismo?

Miller

Quando eu estava vivendo em Paris, nós tínhamos uma expressão, uma bem americana, que de certo modo explica o termo melhor que qualquer outra coisa. Nós costumávamos dizer “Vamos assumir o comando”. Isso significava perder as estribeiras, mergulhar no inconsciente, apenas obedecendo a seus instintos, seguindo os impulsos do coração ou das tripas ou seja lá como você queira chamá-lo. Mas esse é meu modo de colocá-lo, isto não é realmente a doutrina surrealista; isso não convenceria, acho, André Breton. Entretanto, o ponto de vista francês doutrinário não significava muito para mim. Tudo com o que eu me importava era encontrar outros meios de expressão, e acrescentei um, um elevado, mas para ser usado muito judiciosamente. Quando os assim chamados surrealistas empregaram esta técnica, eles fizeram muito deliberadamente, pareceu a mim. Tornou-se ininteligível, não servia a propósito algum. Uma vez que alguém perde sua inteligibilidade, está perdido.

Entrevistador

Seria surrealismo o que você quis dizer com a frase “dentro da vida noturna” [Into the night life, no original]?

Miller

Sim, era aí que estava originalmente o sonho. Os surrealistas fazem uso do sonho e é claro que esse é um aspecto fecundo da experiência. Conscientemente ou inconscientemente, todos os escritores empregam o sonho, mesmo que não sejam surrealistas. A mente desperta, veja, é a menos aproveitável nas artes. No processo da escrita, o escritor está lutando para trazer o que é desconhecido para si mesmo. Para colocar de forma mais simples: aquilo de que alguém está consciente não significa nada, realmente não o leva a lugar algum. Qualquer um consegue fazê-lo com alguma prática, qualquer um pode tornar-se uma espécie de escritor.

Entrevistador

Você já denominou Lewis Carroll de surrealista, e seu nome sugere o tipo de nonsense que você utiliza ocasionalmente...

Miller

Sim, sim, Lewis Carroll é um escritor que amo. Eu daria meu braço direito para ter escrito seus livros, ou para ser capaz de chegar próximo ao que ele fez. Quando terminar meu projeto, se eu continuar escrevendo, amaria escrever o mais puro nonsense.

Entrevistador

E o Dadaísmo? Você alguma vez já se interessou?

Miller

Sim, o Dadaísmo foi ainda mais importante para mim que o surrealismo. O movimento dadaísta foi algo verdadeiramente revolucionário. Foi um esforço deliberado consciente de virar as mesas de pernas para o ar, de mostrar a absoluta insanidade de nossa vida diária, a inutilidade de todos nossos valores. Existiam pessoas magníficas no movimento Dadaísta, e todos eles tinham senso de humor. Era algo para fazê-lo rir, mas também para fazê-lo pensar.

Entrevistador

Parece-me que em Primavera Negra você chegou bem perto do Dadaísmo.

Miller

Sem dúvida. Era uma época em que eu me impressionava bastante. Eu estava aberto a tudo que estava acontecendo quando cheguei à Europa. É verdade que algumas coisas eu conheci quando estava na América. Transition chegou à América; Jolas era magnífico em selecionar aqueles estranhos e bizarros escritores dos quais nunca tínhamos ouvido falar. Eu me lembro, por exemplo, de ir à exposição Armory para ver “Nu descendo a escada” de Marcel Duchamp, e muitas outras coisas maravilhosas. Fiquei enfeitiçado, intoxicado. Aquilo era o que eu estava procurando, e me pareceu tão familiar.

Entrevistador

Você sempre foi melhor compreendido e apreciado na Europa do que na América ou na Inglaterra. O que você pensa sobre isso?

Miller

Bem, em primeiro lugar eu não tinha muitas chances de ser compreendido na América porque meus livros não tinham sido publicados lá. À parte isso, apesar de ser cem por cento americano (e eu sei disso cada vez mais todos os dias), ainda assim, relacionava-me melhor com europeus. Eu conseguia falar com eles, expressar meus pensamentos mais facilmente, ser mais rapidamente compreendido. Tinha uma afinidade muito maior com eles do que com americanos.

Entrevistador

No seu livro sobre Patchen você diz que na América o artista nunca será aceito a menos que ele se comprometa. Você ainda pensa da mesma maneira?

Miller

Sim, estou mais convencido do que nunca. Eu sinto que a América é essencialmente contra o artista, que o inimigo da América é o artista, porque ele insiste na individualidade e na criatividade, e isso é, de alguma forma, anti-americano. Eu creio que, de todos os países – nós temos é claro que ver os países comunistas –, a América é o mais mecanizado, robotizado de todos.

Entrevistador

O que você encontrou na Paris dos anos 30 que não poderia ter encontrado na América?

Miller

Uma coisa: suponho que encontrei uma liberdade que nunca encontrei na América. Eu achei o contato com as pessoas muito mais fácil – quer dizer, as pessoas com as quais eu gostava de conversar. Encontrei mais pessoas da minha espécie lá. Acima de tudo eu senti que era tolerado. Eu não pedia para ser compreendido ou aceito. Ser tolerado era o suficiente. Na América, eu nunca me senti assim. Mas a Europa era um novo mundo para mim. Eu supunha que deveria ser bom em qualquer outro lugar – apenas estar em outro mundo, um estrangeiro. Porque toda minha vida, de verdade, e isto é parte da minha psicológica – como devo dizer? – estranheza, eu somente gostava do que era estrangeiro.

Entrevistador

Em outras palavras, se você tivesse ido à Grécia em 1930 e não em 1939, teria encontrado a mesma coisa?

Miller

Não teria encontrado a mesma coisa, mas teria encontrado os meios de auto-expressão, de autoliberação lá. Eu não teria me tornado o tipo de escritor que sou hoje, mas sinto que teria me encontrado. Na América, eu corria o risco de enlouquecer ou de cometer suicídio. Eu me sentia completamente isolado.

Entrevistador

E sobre o Big Sur? Você encontrou um ambiente apropriado lá?

Miller

Oh, não, não havia nada lá, exceto a natureza. Eu estava sozinho, que era o que eu queria. Permaneci lá porque era um ponto isolado. Já tinha aprendido a escrever sem me importar onde estivesse vivendo. Foi uma mudança maravilhosa, o Big Sur. Eu então definitivamente deixei as cidades grandes para trás. Eu já tinha tido o suficiente de vida urbana. Mas nunca escolhi o Big Sur, entende? Fui largado na estrada lá um dia por um amigo. Ele me disse “Vá e procure tal e tal pessoa, e ela lhe hospedará por uma noite ou uma semana. É uma região maravilhosa, acho que você vai gostar”. E foi assim que eu fui parar ali. Nunca havia ouvido falar do Big Sur antes. Eu conhecia o Point Sur porque tinha lido Robinson Jeffers. Li seu Mulheres no Point Sur no Café Rotonde em Paris – nunca me esquecerei.

Entrevistador

Não é surpreendente que você tenha ido para a natureza dessa maneira, já que você sempre foi um homem urbano?

Miller

Bem, veja você, eu tenho uma natureza chinesa. Sabe, na China antiga quando o artista ou o filósofo começava a ficar velho, ele se aposentava no campo. Para viver e meditar em paz.

Entrevistador

Mas no seu caso foi uma espécie de coincidência?

Miller

Completamente. Mas, veja, tudo de significativo na minha vida aconteceu dessa maneira – por puro acaso. É claro que eu não acredito nisso também. Eu acredito que sempre houve um propósito, que estava destinado para ser dessa maneira. A explicação está no meu horóscopo – esta seria a minha resposta franca. Para mim é bastante claro.

Entrevistador

Por que você nunca voltou a viver em Paris?

Miller

Por várias razões. Em primeiro lugar, eu me casei logo depois de chegar ao Big Sur; e então tive filhos; e não tinha dinheiro; e também me apaixonei pelo Big Sur. Eu não tinha desejo algum de retomar a minha vida em Paris, havia terminado. A maioria dos meus amigos foi embora, a guerra havia despedaçado tudo.

Entrevistador

Gertrude Stein diz que viver na França purificou seu inglês porque ela não usava a língua nativa no dia-a-dia, e isso fez dela a estilista que é. Morar em país teve o mesmo efeito em você?

Miller

Não exatamente. Mas eu entendo o que ela quis dizer. É claro que eu falei muito mais inglês lá do que ela. Menos francês, em outras palavras. Eu estava saturado do francês o tempo todo. Ouvir outra língua diariamente aprimora sua própria língua, faz você ficar ciente de sombras e nuances que nunca suspeitou. Além disso, surge um leve esquecimento que lhe deixa ávido para conseguir recapturar certas frases e expressões. Você se torna mais consciente de sua língua.

Entrevistador

Você teve alguma coisa ver com Gertrude Stein e seu grupo?

Miller

Não, nada. Nunca a encontrei, não conhecia ninguém que pertencia ao grupo dela. Mas, poderia dizer, que não sabia nada de nenhum grupo. Eu era sempre um lobo solitário, sempre contra escolas e grupos e seitas e cultos e ‘ismos’ e assim por diante. Conheci alguns surrealistas, mas nunca fui membro do grupo surrealista ou de qualquer outro grupo.

Entrevistador

Você conheceu algum escritor norte-americano em Paris?

Entrevistador

Conheci Walter Lowenfels, Samuel Putnam, Michael Fraenkel. Sherwood Anderson, Dos Passos, Steinbeck e Saroyan conheci depois na América. Eu os encontrei poucas vezes. Nunca tive uma conexão de verdade com eles. De todos os escritores americanos que conheci , Sherwood Anderson continua sendo o que eu mais gostei. Dos Passos era um camarada afetuoso, mas Sherwood Anderson – bem, eu tinha me apaixonado por sua obra, seu estilo, sua linguagem, desde o começo. E gostei dele como ser humano – embora nós discordássemos em muitos pontos, principalmente sobre a América. Ele amava a América, conhecia-a intimamente, ele amava o povo e tudo sobre a América, e eu era o contrário. Mas adorava o que ele tinha a dizer sobre os Estados Unidos.

Entrevistador

Você conheceu muitos escritores ingleses? Teve uma amizade de longa data com Durrell e Powys, não teve?

Miller

Durrell, com certeza, mas então eu dificilmente pensava nele como um escritor inglês. Eu o acho completamente anti-Britânico. John Cowper Powys, com certeza, teve uma influência tremenda sobre mim; mas na época não o conhecia, nunca o cultivava. Eu não ousaria! Eu era um anão e ele, um gigante. Ele era meu deus, meu mentor, meu ídolo. Eu cruzei com ele quando tinha meus vinte e poucos anos. Ele costumava dar palestras em Labor temples em nova York, Cooper Union, lugares assim. E custava apenas dez centavos ouvi-lo falar. Uns trinta anos depois, fui vê-lo em Wales e fiquei surpreso ao descobrir que ele conhecia meu trabalho. Ele parecia ter um grande respeito pelo meu trabalho – o que me surpreendeu ainda mais.

Entrevistador

Você conheceu Orwell nessa época também?

Miller

Orwell encontrei apenas duas ou três vezes, em suas visitas a Paris. Eu não o chamaria de amigo, apenas um conhecido passageiro. Mas eu estava louco pelo seu livro “Down and Out in Paris and London”; é um clássico. Para mim é ainda o seu melhor livro. Embora ele fosse um cara legal à sua maneira, Orwell, no fim eu o achei estúpido. Ele era como muitos ingleses, um idealista, e, pareceu-me, um idealista tolo. Um homem de princípios, como dizem. Homens de princípios me causam tédio.

Entrevistador

Você não vê muita utilidade para política?

Miller

Eu considero a política um mundo totalmente imundo, podre. Não chegamos a lugar algum através da política. Ela corrompe tudo.

Entrevistador

Mesmo o tipo de idealismo político de Orwell?

Miller

Justamente este! Falta senso de realidade aos idealistas na política. E um político tem que ser um realista acima de tudo. Estas pessoas com ideais e princípios, estão todas desnorteadas, na minha opinião. Deve-se ser um tolo, um pouco assassino, para ser um político; preparado e desejoso de ver as pessoas serem sacrificadas, assassinadas, por causa de uma idéia, seja ela boa ou má. Quer dizer, estes são os políticos que florescem.

Entrevistador

E sobre os autores do passado que particularmente atraíram você? Você fez estudos de Balzac, Rimbaud e Lawrence? Você diria que existe um tipo particular de escritor que lhe atrai?

Miller

É difícil dizer, os escritores que amo são tão diversos. São pessoas que são mais que escritores. Eles têm essa qualidade X misteriosa que é metafísica, mística e outras coisas – eu não sei qual termo usar – esse pequeno algo a mais além dos confins da literatura. Veja bem, as pessoas lêem para se distrair, para passar o tempo, ou para se instruir. Eu nunca li para passar o tempo, para me torna estático. Estou sempre procurando o autor que me faça sair de mim.

Entrevistador

Você poderia dizer por que nunca terminou seu livro sobre D.H. Lawrence?

Miller

Sim, é simples. Quanto mais eu prosseguia com o livro, menos eu entendia o que estava fazendo. Eu me encontrei em um monte de contradições. Descobri que não conhecia de verdade quem Lawrence era, eu não conseguia situá-lo, identificá-lo. Fiquei completamente confuso. Eu tinha me colocado em uma confusão e não conseguia sair. Então abandonei o trabalho.

Entrevistador

Entretanto, você não teve esse problema com Rimbaud?

Miller

Não, estranhamente não. Ele é mais um enigma como personalidade. Mas não tive que me debater tanto com as idéias no livro sobre Rimbaud. Lawrence era um homem inteiramente de idéias, e ele pendurava sua literatura nas prateleiras de suas idéias.

Entrevistador

Você não necessariamente concorda com as idéias de Lawrence, não é?

Miller

Não, não totalmente, mas eu realmente admiro sua busca, sua indagação, sua luta. E há muitas coisas em Lawrence com as quais eu concordo. Por outro lado, há muitas coisas que eu rio sobre Lawrence, coisas que parecem absurdas e estúpidas, tolas. Tenho uma perspectiva melhor dele hoje, mas não acho mais importante dizer qualquer coisa sobre ele. Na época ele significou algo para mim, eu estava sob o seu domínio.

Entrevistador

Bem, agora, eu suponho que devemos entrar na questão da pornografia e obscenidade. Espero que você não se importe. Afinal, você é considerado uma autoridade no assunto. Você disse em algum lugar, “Eu sou pela obscenidade e contra a pornografia”?

Miller

Bem, é simples. A obscenidade deveria ser direta, sem rodeios, e a pornografia deveria ser indireta. Eu acredito que a verdade, trazê-la fria, chocante se necessário, não a disfarça [obscenidade]. Em outras palavras, a obscenidade é um processo de limpeza, ao passo que a pornografia somente acrescenta à escuridão.

Entrevistador

Limpeza em que sentido?

Miller

Toda vez que um tabu é quebrado, algo bom acontece, algo vitalizador.

Entrevistador

Todos os tabus são ruins?

Miller

Não entre povos primitivos. Existe uma razão para o tabu na vida primitiva, mas não em nossa vida, não em comunidades civilizadas. Aí o tabu é perigoso e doentio. Veja, pessoas civilizadas não vivem de acordo com códigos morais ou princípios de qualquer espécie. Nós falamos sobre eles, fingimos acreditar neles, mas ninguém acredita neles. Ninguém pratica essas regras, elas não têm lugar em nossas vidas. Tabus são afinal somente ressacas, o produto de mentes doentias, digamos, de pessoas medonhas que não tiveram a coragem de viver e que sob a aparência externa da moralidade e da religião impuseram essas coisas a nós. Eu vejo o mundo, o mundo civilizado, como amplamente irreligioso. A religião em vigor entre pessoas civilizadas é sempre falsa e hipócrita, totalmente o oposto daquilo que os introdutores da religião queriam dizer.

Entrevistador

Ainda assim, você tem sido considerado um homem bastante religioso.

Miller

Sim, mas sem aderir a nenhuma religião. O que isso significa? Significa simplesmente ter uma reverência pela vida, estar do lado da vida e não da morte. Mais uma vez, a palavra “civilização”, em minha mente, está atrelada à morte. Quando uso a palavra, vejo civilização como algo paralítico, retrógrado, embrutecedor. Para mim sempre foi assim. Não acredito nas épocas de ouro, entende? Quer dizer, houve épocas douradas para pouquíssimas pessoas, mas as massas sempre estiveram na miséria – eram supersticiosas, ignorantes, foram oprimidas, estranguladas pela Igreja e o Estado. Ainda acredito em Splenger, está tudo ali. Ele faz a antítese entre cultura e civilização. A civilização é a arteriosclerose da civilização.

Entrevistador

Durrell no artigo que escreveu sobre você para a Horizon dez anos atrás fala da obscenidade como técnica. Você considera a obscenidade como uma técnica?

Miller

Sei o que ele quis dizer com isso. Ele quis dizer uma técnica de choque. Bem, eu devo usá-la desta maneira inconscientemente, mas eu nunca a usei deliberadamente. Eu empreguei a obscenidade tão naturalmente como empregaria qualquer outra forma de falar. Era como respirar, era parte do meu ritmo. Existiam momentos em que era obsceno, e existiam outros. Eu não acho a obscenidade o elemento mais importante de qualquer maneira. Mas é um muito importante, e não pode ser negado, omitido ou suprimido.

Entrevistador

Mas pode ser também exagerado...

Miller

Pode ser, mas qual o mal se fosse? Por que estamos tão preocupados, o que existe na obscenidade para ser temido? Palavras, palavras – o que existe nelas para ser temido? Ou nas idéias? Supondo-se que elas são repulsivas, somos nós covardes? Não encaramos nós todo o tipo de coisas, não estivemos diversas vezes em tempos de destruição com a guerra, doença, pestilência, fome? Com o que estamos ameaçados pelo uso exagerado da obscenidade? Onde está o perigo?

Entrevistador

Você comentou que a obscenidade é branda em comparação a todo tipo de violência que é muito comum em edições americanas.

Miller

Sim, toda essa escrita perversa e sádica é detestável para mim. Eu sempre disse que minha escrita é saudável porque é jovial e natural. Eu nunca expressei nada que as pessoas não estão dizendo e fazendo o tempo todo. De onde eu tirei? Não foi da cartola. Está tudo ao nosso redor, nós a respiramos todos os dias. As pessoas simplesmente se recusam em admitir. Entre a palavra escrita e a falada – qual a diferença? Você sabe, nem sempre tivemos esse tabu. Existiu uma época na literatura inglesa em que quase tudo era permitido. Somente nos últimos duzentos ou trezentos anos que tivemos essa atitude preocupante.

Entrevistador

Bem, mesmo em Chaucer você não encontrará todas as palavras que encontra em Henry Miller.

Miller

Mas você certamente encontrará bastante alegria, naturalismo saudável, muita liberdade de expressão.

Entrevistador

O que você acha do comentário que Durrell fez em sua entrevista para a Paris Review? Ele disse que em retrospecto ele acha algumas partes do “Black Book” [novela de Durrell] muito obscenas hoje.

Miller

Mesmo? Deixe-me dizer que essas partes são as que eu mais gosto. Achei-as maravilhosas quando as li pela primeira vez, e ainda acho hoje em dia. Talvez ele estivesse apenas ironizando.

Entrevistador

Por que você escreveu tanto sobre sexo? O que o sexo significa para você? Significa algo especial?

Miller

É difícil responder. Sabe, eu acho que escrevi tanto daquilo que meus críticos hostis chamam “disparate” – que é nonsense metafísico – como escrevi sobre sexo. Apenas que eles preferem olhar para o sexo. Não, eu não tenho como responder a essa pergunta, exceto dizer que o sexo tem um grande papel na minha vida. Eu levei uma rica vida sexual, e não vejo como isso poderia ser deixado de fora.

Entrevistador

Teve algo a ver com o rompimento com a vida que você estava levando em Nova Iorque?

Miller

Não, acho que não. Mas percebe-se na França, depois de se viver na América, que o sexo impregna o ar. Está à sua volta, como um fluido. Eu não duvido que os americanos entrem em suas relações sexuais tão fortemente, profundamente, variadamente como qualquer outra pessoa, mas não está na atmosfera à sua volta, entretanto. Além disso, na França a mulher tem um papel mais importante na vida dos homens. Ela tem uma posição melhor lá, é levada em consideração, conversam com ela como se fosse uma pessoa, não como apenas uma esposa ou uma dona-de-casa e outras coisas. Além de que os franceses preferem estar na companhia de mulheres. Na Inglaterra e na América, os homens parecem gostar de ficar entre eles.

Entrevistador

Apesar de que sua vida na Villa Seurat era bem masculina.

Miller

Com certeza, mas sempre havia mulheres. Eu tinha muitos amigos, é verdade, mas tive muitas amizades em toda minha vida. É outra coisa em meu horóscopo: sou um homem destinado a fazer amigos. Este é provavelmente o maior fator em minha vida, e talvez eu deva dizer alguma coisa sobre isso. Quando comecei a escrever, percebi o quanto estava em dívida com os outros. A vida inteira fui ajudado por amigos e estranhos também. Para que eu precisava de dinheiro, quando tinha amigos? O que alguém quer quando tem amigos? Eu tive muitos amigos, grandes amigos, amigos de uma vida inteira. E agora os estou perdendo para a morte.

Entrevistador

Deixemos o sexo e falemos sobre a pintura. Você sentiu essa ânsia de escrever por volta da metade dos anos 20; você começou a pintar na mesma época?

Miller

Logo após. Acho que era 1927 ou 28 quando comecei. Mas não com a mesma seriedade, naturalmente. O desejo de escrever era uma coisa grande em minha vida, enorme. Se eu não tivesse começado a escrever tão tarde – estava com 33 quando comecei definitivamente; havia colocado a escrita muito acima de mim, eu não pensava ter a habilidade, eu não acreditava em mim como um escritor, um artista. Veja, eu não ousava pensar que pudesse ser tal pessoa. Bem, eu não tomei a pintura dessa maneira. Descobri que existia um outro lado meu que poderia ser usado. Deu-me prazer pintar, era uma recreação, era um descanso de outras coisas.

Entrevistador

É ainda uma espécie de jogo para você?

Miller

Oh sim, nada mais.

Entrevistador

Você não encontra um tipo fundamental de conexão entre as artes?

Miller

Absolutamente. Se você é criativo de um jeito, será de outro. Originalmente, sabe, a música era a grande coisa comigo. Toquei piano, esperava ser um grande pianista, mas não tinha talento para isso. Ainda assim, estava saturado de música. Poderia mesmo dizer que a música significa mais para mim do que a literatura e a pintura. Está lá na parte de trás da minha cabeça o tempo todo.

Entrevistador

Você foi muito interessado em jazz por um tempo.

Miller

Fui. Não me interesso muito hoje. Acho o jazz completamente vazio agora. Está muito limitado. Assim como deploro o que aconteceu com os filmes, deploro o destino do jazz. Ele torna-se cada vez mais automático, não evolui o suficiente, não enriquece. É como tomar apenas um aperitivo. E Eu preciso de vinho, cerveja, champanhe e conhaque também.

Entrevistador

Você escreveu vários ensaios nos anos 30 sobre a arte cinematográfica. Você já teve a chance de praticar essa arte?

Miller

Não, mas ainda espero encontrar a pessoa que me dará a chance. O que eu mais deploro é que a mídia do filme nunca foi explorada apropriadamente. É um meio de comunicação poético com todos os tipos de possibilidades. Apenas pense no elemento do sonho e da fantasia. Mas com que freqüência o alcançamos? Um pouco aqui e ali, um leve toque e ficamos embasbacados. E pense em todos os dispositivos técnicos ao seu dispor. Mas, meu Deus, nós nem mesmo começamos a usá-los. Nós poderíamos ter maravilhas, milagres, alegria e beleza ilimitadas. E o que nós temos? Merda pura. O filme é o mais livre de todos os meios de comunicação, você pode fazer maravilhas com o meio. Na verdade eu ficaria feliz com o dia em que o filme substituísse a literatura, quando não houvesse mais a necessidade de ler. Você recorda rostos e gestos em filmes de uma maneira que não consegue quando lê um livro. Se o filme consegue te prender dessa maneira, você se entrega totalmente. Mesmo quando você ouve música, não é a mesma coisa. Você vai a uma sala de concertos, a atmosfera é ruim, as pessoas estão bocejando, ou dormindo, a programação é muito longa e não tem coisas das quais você gosta e assim por diante. Você sabe o que eu quero dizer. Mas no cinema, sentado lá no escuro, as imagens indo e vindo, é como uma chuva de meteoritos lhe acertando.

Entrevistador

E sobre uma versão cinematográfica para Trópico de Câncer?

Miller

Existem rumores. Foram feitas ofertas, mas eu não consigo ver como alguém poderia fazer um filme daquele livro.

Entrevistador

Gostaria de você mesmo fazê-lo?

Miller

Não, eu não faria porque acho quase impossível fazer um filme do livro. Eu não vejo a estória ali. E depende muito da linguagem. Talvez alguém possa transformar essa linguagem tropical em japonês ou turco. Não consigo vê-lo sendo interpretado em Inglês, não acha? O filme é definitivamente um meio dramático e plástico, de qualquer forma, uma coisa de imagens.

Entrevistador

Ano passado, você foi um dos juízes do Festival de Cannes, não foi?

Miller

Sim, apesar de ser, mais propriamente, uma escolha dúbia. Os franceses provavelmente o fizeram por apreciarem meu trabalho. É claro que eles sabiam que eu era cineasta, mas quando um repórter me perguntou se eu ainda gosto de filmes, eu tive de dizer que dificilmente assisto a filmes. Nos últimos quinze anos vi poucos bons filmes. Mas sim, ainda sou um cineasta de coração.

Entrevistador

Você escreveu uma peça de teatro. Como se sente em relação a esse meio?

Miller

É um meio com o qual sempre desejei lidar, mas nunca tive coragem. Em Nexus, quando levo aquela vida subterrânea e estou lutando para escrever, existe uma descrição, uma bastante vívida, de como tentei escrever uma peça de teatro sobre a vida que estávamos então levando. Eu nunca a concluí. Acho que cheguei no primeiro ato. Eu tinha pregado com uma tachinha um plano elaborado da peça na parede, e poderia falar sobre ela maravilhosamente, mas não conseguia trazê-la à tona. A peça que escrevi saiu do cartola, por assim dizer. Eu estava num estado mental peculiar: não tinha nada para fazer, nenhum lugar para ir, pouco para comer, todo mundo estava longe, e então eu disse ‘por que não sentar e tentar?’. Não tinha idéia o que estava fazendo quando comecei, as palavras apenas vieram, não lutei com elas. Não houve muito esforço envolvido.

Entrevistador

Do que se trata?

Miller

Sobre tudo e nada. Eu não acho que importa sobre o que é a peça, realmente. É uma espécie de farsa, uma representação burlesca com elementos surrealistas. E há música, música incidental, que vem da jukebox e de acima da atmosfera. Eu não acho que tenha grande importância. O máximo que posso dizer sobre ela é que você não irá dormir se assisti-la.

Entrevistador

Você pensa em escrever mais peças?

Miller

Espero que sim, sim. A próxima será uma tragédia, ou uma comédia para fazer chorar.

Entrevistador

O que mais você está escrevendo no momento?

Miller

Não estou escrevendo mais nada.

Entrevistador

Você não vai dar continuidade com o volume dois de Nexus?

Miller

Sim, claro, isso é o que tenho de fazer. Mas ainda não o comecei. Fiz várias tentativas, mas desisti.

Entrevistador

Você tem que fazê-lo?

Miller

Sim, de certo modo, tenho que terminar meu projeto, o projeto que elaborei em 1927. Este é o fim dele. Eu penso que parte do meu atraso em finalizá-lo é que não quero dar um fim à obra. Significa que vou me virar, pegar uma outra direção, descobrir um novo campo. Porque não quero mais escrever sobre experiências pessoais. Escrevi todos esses livros autobiográficos não porque pensava ser uma pessoa muito importante – isto vai fazer você rir – mas porque pensei, quando comecei, que estava contando a estória mais trágica de sofrimento que qualquer homem já suportou. Conforme prossegui, percebi que eu era apenas um amador em relação ao sofrimento. Certamente tive um bom bocado dele, mas não penso mais que foi tão terrível assim. Foi por isso que chamei a trilogia de A Crucificação Encarnada. Descobri que esse sofrimento era bom para mim, abria o caminho para uma vida jovial, através da aceitação do sofrimento. Quando um homem é crucificado, quando morre para si, seu coração se abre como uma flor. É claro que você não morre, ninguém morre, a morte não existe, você apenas alcança um nível de visão, um novo reino da consciência, um novo mundo desconhecido. Assim como você não sabe de onde veio, também não sabe para onde está indo. Mas existe algo lá, antes e depois, eu acredito firmemente.

Entrevistador

Como é ser um best-seller após ter suportado as precárias condições do artista criativo todos esses anos?

Miller

Eu não sinto nada em relação a isso. É irreal para mim, a coisa toda. Eu não me vejo envolvido. De fato, eu mais desgosto do que qualquer outra coisa. Não me dá prazer. Tudo que eu vejo é mais interrupção na minha vida, mais intrusões, mais nonsense. As pessoas estão preocupadas com algo que já não me preocupa. Aquele livro não significa mais nada para mim. As pessoas pensam que porque elas estão analisando-o, eu também o estou. Eles pensam que é uma coisa grandiosa para mim que afinal fui aceito. Bem, sinto que fui aceito muito antes; no mínimo por aqueles por quem eu me importava em ser aceito. Ser aceito pela multidão não significa nada para mim. De fato, é bastante doloroso. Porque estou sendo aceito pelas razões erradas. É questão de sensacionalismo, não significa que estou sendo apreciado pelo meu verdadeiro valor.

Entrevistador

Mas é parte do reconhecimento que você sempre soube que viria.

Miller

Sim, claro. Mas então, você não vê?, o único reconhecimento real vem daqueles que estão no mesmo nível que você. Isso é a única coisa que importa, e eu tive isso. Tive isso por anos.

Entrevistador

Qual dos seus livros você considera o melhor?

Miller

Eu sempre digo O Colosso de Marússia.

Entrevistador

A maior parte dos críticos considera Câncer seu grande livro.

Miller

Bem, relendo Câncer eu o achei muito melhor do que tinha pensado. Eu gostei. Fiquei maravilhado, na verdade. Não olhei para ele durante anos, sabe. Eu acho um bom livro com qualidades duradouras. Mas Colosso foi escrito a partir de outro nível do meu ser. O que eu gosto nele é ser um livro jovial, que expressa e dá alegria.

Entrevistador

O que aconteceu com Draco and the Ecliptic, que você anunciou muito anos atrás?

Miller

Nada. Foi esquecido, apesar de ser sempre possível que um dia eu escreva esse livro. Minha idéia era escrever um livro fino, explicando o que eu estive tentando fazer ao escrever todos esses livros sobre a minha vida. Em outras palavras, para esquecer o que eu escrevi e tentar novamente explicar o que eu esperava fazer. Dessa forma, talvez dar a significância da obra a partir do ponto de vista do autor. O ponto de vista do autor é somente um de muitos, e sua idéia da significância de seu próprio trabalho é perdido na confusão de outras vozes. Será que ele conhece seu próprio trabalho tão bem quanto imagina? Prefiro pensar que não. Prefiro pensar que ele é um médium que, quando sai do transe, está maravilhado com o que disse e fez.

Para ler o texto em inglês, acesse:

http://www.theparisreview.com/media/4597_MILLER_H.pdf

4 comentários:

Rafael C. disse...

Ha!, Milton, muito bom o seu trabalho. obrigo pelo esforço e paciência.

abraços,

Mas o Rafael.

Fred Teixeira disse...

Cara, não li toda a entrevista mas, pelo que li, percebi que fez um bom trabalho. Já fui vidrado no Miller; li A Crucificação Encarnada, os Trópicos, Dias de Clichy, Moloc e Pesadelo Refrigerado praticamente enfileirados. Sempre achei que ele foi o precursor dos beats americanos.dfte

Hector disse...

parabéns por ter postado essa entrevista q foi muito boa!!

luiz alberto corrêa disse...

Com certeza uma das mais interessantes entrevistas com Miller, ele se desveste completamente e mostra muito de sua forma de escrever.Com certeza Miller foi uma dos escritores mais importantes do século XX.