quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Primeira ida ao hospital psiquiátrico do Jardim Tamoio – 16/08/08


Introdução: da chegada até o encontro com José Cyro – impressões iniciais

A excitação é grande às 10 horas da manhã. Subir de maneira independente em uma favela que boa parte da população de Jundiaí nem sabe da existência causa essa sensação, ainda mais quando se descobre sobre onde esse distrito impopular foi construído, nas ruínas de um antigo hospital psiquiátrico falido há décadas. A carga simbólica é grande demais, todos os estereótipos, tanto do contato mais pífio com a leitura acadêmica do estudo da mente quanto da lembrança do pior filme de horror, ambientado nas alas das reminiscências de um hospício, discursando superficialmente no poder de resistência das experiências dos mentalmente insanos a sobreviver a anos de esquecimento, vem à tona para aguçar a mente e a percepção. E claro, jamais esquecendo que é uma favela. O termo poder paralelo, tão usado nos últimos anos, dá a entender que pela falta de cuidados do poder vigente, no caso o público, que se trata de um condado estrangeiro na periferia da cidade, uma embaixada da pobreza, da miséria e do descaso. Aliás, como depois de constatado com os próprios moradores, a Prefeitura se diz de mãos atadas em relação ao local, pois o processo de falência do antigo hospital não foi concluído, e como a propriedade privada não pode ser desapropriada antes do término da sentença judicial, a administração pública é incapaz de qualquer incursão sobre esse solo.

Como afirma o jargão, “em Roma, faça como os romanos”. Infelizmente, Roma ainda é mais familiar que o Tamoio. Crianças têm contato com o maior império físico do ocidente em suas aulas de história, aprendem sobre o berço do direito e de como Rômulo e Remo foram amamentados por uma loba. Já sobre o Tamoio, não ouvem nem falar, então os costumes, os hábitos, a estética e a ética do local são um grande mistério. É propriamente por isso, que não leva mais de alguns segundos para notarem que somos “estrangeiros”, e como ainda não encontramos o senhor José Cyro, nosso contato e guia dentro do Tamoio, a excitação e a percepção aguçada aumentam no mesmo grau da vulnerabilidade e do receio que formiga pelo corpo, atiçado pelas lembranças de todas aquelas edições de telejornais mostrando a violência nos morros, claro que é uma impressão generalizada, mas eu sou “estrangeiro”, não conheço as regras da região, não sei quais são as atitudes corretas, como sei qual algum hábito ou vicio que adquiri na minha vida de classe média pode representar alguma ofensa, estou submerso em preconceitos e senso comum, e isso me envergonha. Contenho-me e retraio meus movimentos ao máximo e vou à procura da minha referência.

Descobrimos pelo neto de José Cyro que ele está ao nosso aguardo em um bar logo na saída do antigo hospital, passamos direto por ele e não o vimos. No meio do caminho minha percepção aguçada, agora pela dose de alívio, capta dois vira-latas brigando. É ingenuidade achar isso um fato digno de nota, ou algum exemplo ilustrativo, até porque ninguém mais está prestando atenção, mas é impossível deixar de olhar. Existe uma coreografia intrínseca na disputa. A postura defensiva é primordial, os caninos primeiramente evitam qualquer ofensiva do adversário, a força nas patas traseiras, firmadas no chão, se comportam como fonte de equilíbrio, demonstrando o desejo de não se deixar cair e não se render. Os membros dianteiros estão livres, ágeis e se movem com velocidade, proporcionando uma rápida ofensiva para explorar as brechas da defesa alheia, assim como uma rápida mudança de posição, se isso se fizer necessário. A estratégia de ataque é clara, os cães se empinam à medida que tentam apoiar suas patas dianteiras um sobre o outro, jogando todo seu peso e tendo estabilidade e altura o suficiente para visualizarem a nuca vulnerável, a abocanharem, subjugarem o adversário e postar-se numa posição hierarquicamente maior.

As atenções saem dos cães. As primeiras casas postadas no antigo hospital são precariamente construídas de concreto, mais a fundo existem os barracos de madeira ainda mais frágeis, mas não tão chocantes quanto o fato de haver famílias vivendo nos antigos quartos dos internos – a carga simbólica praticamente surra a mente. Em 2008, a Caixa Econômica anunciou um investimento recorde na área de habitação na cidade de Jundiaí, fora novas facilidades de pagamento, agilidade e desburocratização na concessão de financiamentos. O município mais uma vez sediou a Feiccad, evento que reúne todos os setores ativos no segmento da habitação, autoridades executivas e econômicas se regojizaram pelos indícios de desenvolvimento e crescimento do setor imobiliário de Jundiaí. Então, quais diabos seriam os motivos de cerca de 300 famílias ainda estarem vivendo em submoradias, sem condições de apresentarem um endereço formalmente constituído? O problema não pode ser respondido de maneira maniqueísta e populista, ele é complexo. O salário mínimo definido federalmente está na ordem dos R$ 450. O parcelamento de um imóvel, por mais fácil e baixo que ele seja, mesmo no senso comum não pode ser menor que algumas centenas de reais. No Tamoio, como o próprio José Cyro explicou, “a maior parte das pessoas têm seus trabalhos. São todos trabalhadores, mas é a menor parte que tem uma carteira assinada. Algumas não conseguem trabalhar formalmente porque os contratadores ao saberem que elas moram por aqui ficam com medo de chamar para trabalhar”. A falta de uma carteira de trabalho afasta a legislação trabalhista, então a remuneração pode variar tanto acima quanto abaixo do mínimo estipulado. Caso for abaixo, algumas centenas de reais são a diferença entre uma refeição e a fome durante o mês. O bom prato custa R$ 1 real por refeição. Para uma mãe com seus três filhos, duas refeições diárias no Bom Prato significam o dispêndio de pelo menos R$ 240 por mês. Também existe o problema de conseguir um financiamento bancário sem possuir um comprovante formal de endereço, o que é irônico, pois a pessoa fica impossibilitada de alcançar sua vontade de conseguir um endereço, justamente por não ter um. Enquanto isso, a fomentação imobiliária em Jundiaí continua em alta. Condomínios de alto padrão em fase de projeção no Caxambu comprovam isso. Como se sente um morador do Tamoio? Não sei, mas eu me sentiria como se alguém tivesse jogado o peso de suas patas dianteiras sobre mim, alcançado uma posição hierarquicamente maior e dado uma bela abocanhada na minha nuca e eu nem tivesse visto.

3 comentários:

Ruth disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ruth disse...

Olá!
Li seu texto, ou crônica... não sei como posso classificá-la, e apesar de ser triste, gostei muito.
Trabalho no bairro e conheço muito bem a história de luta dessa comunidade. A luta diária.
Posso entender por que a visita foi feita? Existe algum interesse em desenvolver algum projeto no bairro?
Questiono por que se precisar de ajuda ficarei feliz em cooperar.
att
Ruth

Anônimo disse...

Bom texto. Mas afirmar que não havia nada que a prefeitura e o poder público pudessem fazer durante quase 20 anos de ABANDONO, é uma falácia. É arrumar desculpas para um governo que enriqueceu demais nestes mesmos últimos 20 anos...