sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Autobiografia em uma lauda


Foi quando eu vivia no fundo do oceano que descobri o poder destrutivo de minhas mãos. Era uma madrugada de fevereiro depois de Cristo. Hoje tudo que eu toco vira pó, fogo, hecatombe...

Os sinos tocaram ao meio-dia quando tudo explodiu. Eu sorria sozinho, cansado, segurando um girassol azul. Meus ovários foram extirpados pelas mãos hábeis de uma deusa hindu. Meu coração foi mastigado por um tigre siberiano e oferecido aos filhotes. A dor que senti foi levada ao céu ao sétimo dia e descrita num formulário da companhia universal de esgotos. Nunca mais consegui dizer esta palavra – AMOR.

Meu pai me fazia cumprir uma dieta rigorosa de terra, cacos de vidro e ratos. Vomitei tudo aos 21 anos de idade numa dissertação intitulada “A origem do universo e os corrimentos vaginais”. Amei mulheres em silêncio. Matei coisas e pessoas dentro de mim. Ainda amo palavras e ideias de origem incerta... É por isso que insisto em escrever.

Alguns amigos adoeceram junto comigo da solidão, da angústia do novo século. Em cada ruga facial, em cada máquina estúpida, em cada bugiganga eletrônica e vazio sentimental que surge está a marca do mal inominável que nos aflige. A Era de Aquário é na verdade a Era dos Esgotos, a Era do Tetra Pak, de tudo o que não pode ser aproveitado...

Ainda assim, os seres aquáticos que habitam nossos sonhos permanecem vivos e uma, duas, três mil estrelas explodem em algum lugar do Universo neste exato momento... As regiões abissais da mente... Uma nova rachadura no ovo cósmico... A extravagância do caos... O pensamento atravessa a galáxia de ponta a ponta dez mil vezes mais rápido que a velocidade da luz... E dificilmente você conseguirá brecá-lo... Porque a morte não é mais o limite!


Hamilton Fernandes

Imagem: Nebulosa da Hélice - hubblesite.org


Um comentário:

Damnus Vobiscum disse...

Lido e aprovado, meu caro. Faça-me uma visita no http://nadadenovodenovodenovo.blogspot.com/

Abração