terça-feira, 6 de outubro de 2009

Conto Podre

O telefone.
– E aí, velho, tudo certo?
– Tudo bem, cara...
– Aí! Se liga! Colaí em casa a-go-ra! Tem uma surpresa te esperando!
– O quê?
– Cola aí, velho!

O cara do outro lado da linha é Sander – um cara viciado em cocaína que conheço há dez anos e na semana passada me fotografou comendo sua esposa, aliança de ouro, casamento no civil, igreja e tudo mais, no sofá da sala, ela fingiu que não sabia o que estava acontecendo no começo, arrebitou a bunda, estava um pouco bêbada e o Sander ficou lá de pau mole, totalmente cheirado, tirando fotos e tentando levantar o pau com as carícias da boca da esposa enquanto eu metia por trás naquela cadela e ele dizendo “só não come o cu porque esse cuzinho é meu, certo?”, era o que ele dizia, ok, tudo bem Sander...

Mas isso foi na semana passada...

Toco a campainha.

– E aí, meu irmão! – me recebe com um abraço. – Chega aí, chega aí, abre a porta do quarto devagarinho e dá uma olhada...

Na cama de casal, dormindo como uma pedra, está a cunhada do filho da puta, largada, pelada debaixo das cobertas, apenas a cabeleira negra esparramada no rosto, de bruços...

– Não te falei?! Hã? – e explode numa gargalhada cínica enquanto fecha a porta e tira um punhado de papelotes do bolso. Um Dreher repousa em cima da mesinha no centro da sala.
– Calma lá, Sander! Que é isso, cara? – não consigo segurar a risada. – O que essa mina tá fazendo aqui?...
– Foda-se, mano! Toma um conhaque e dá uma olhada nesse dvd que eu peguei – um filme sobre Bob Dylan na televisão. Ele aumenta o volume.

O conhaque começa a amortecer meus miolos, abro a porta do quarto e ainda ouço o filho da puta rindo e murmurando na sala vai lá vai lá vai lá...

Paro ao lado da cama. Ela desperta de repente, ainda um pouco embriagada pelo sono.
– Oiiiii...
Vou direto ao assunto:
– Quer gozar?
– Só tava esperando alguém...

Uma caverna quente, musgos e saliências... Um mar de lubrificante humano que poderia besuntar todas as máquinas, pistões e correntes de bicicleta, todos os malditos volkswagens, fords e chevrolets desse mundo, e viva o progresso, camarada, viva, três vivas, eu mesmo sou uma máquina e nunca mais quero sair desse abismo quente, escorregadio e cheio de musgos.

Toca o telefone, o celular... Ela se estica para alcançar a bolsa sem sair de cima de mim, engatada ainda, atende:
– Oi, amor...
– Oi, chuchu! – dá pra ouvir a voz do cara vazando pelo aparelho. – Viu, vou demorar um pouco pra sair aqui do trampo... Você já foi buscar a Dani na escola?
– Não, ainda não fui, não deu tempo. Acabei de passar no mercado, tô fazendo xixi aqui no banheiro... – e dá uma reboladinha em cima do meu cacete, que agora começa a murchar... Que merda, como é que pode uma vagabundice dessa, como é que pode, meu Deus?! Chega a ser engraçado... Desengato minha pica daquela merda de buceta e começo a sentir raiva de mim mesmo... Como posso ser iludido tão facilmente por uma merda dessa? O que eu estou fazendo aqui, caralho? Me responda, meu caralho, como você pode ser tão cego, hã? Haha!

Ela desliga o telefone.
– Tenho que estar em casa às sete...
– Desencana, eu também tenho que ir embora...
– Você não ia me fazer gozar?

Ok! Eu vou te fazer gozar, sua putinha de merda, mas dessa vez não sairá porra do meu pau, dessa vez sairão balas de rifle dessa pica, tá entendo? Vou te foder e a cada estocada que eu der espero que saia um tiro de 9mm, um míssil, uma porra cheia de radiação nuclear que fique guardada nesse útero seco e que contamine as próximas duas, três, cinco gerações que surgirem desse ventre podre! É isso aí, “meu amor”! Aí vamos nós! Leva um pouquinho desse leite e alimenta tua filha, teus netos, bisnetos, leva um pouquinho desse leite e mistura no creme de barbear do teu marido e diga a ele o quanto você o ama todas as vezes que ele chegar em casa depois do trabalho!

Espero sentado no sofá enquanto meu amigo, o debiloide cocainômano, leva a cunhadinha até a portão. 6:10 da tarde. O sol se põe lá fora e o céu está cinza, carregado de nuvens podres... Córregos e rios poluídos refletindo a nossa imundície... e eu não consigo mais me concentrar nesse filme do Bob Dylan...

Notlimah Avlis

Um comentário:

Daniel Monteiro disse...

Viril Notlimah, viril. Cheguei a ficar besuntado, mas a dinâmica da movimentação e o ambiente urbano sujo me fizeram voltar à contemplação literária inicial.